Isaac León Frías

El cinéfilo invisible

Quase que a cada edição do FICUNAM temos que abrir um espaço no cronograma para o lançamento de um novo livro de Isaac León Frías. Às quatro da tarde, aproximadamente, como se fosse um ritual ditado pelas leis do cosmos, Frías estará acompanhado por algum colega seu que analisará uma nova publicação do crítico limenho. Nos últimos anos, Frías publicou Tierras bravas. Cine peruano y latinoamericano, Imitación de la vida. Crónicas de cine, El cine en las entrañas (páginas de Hablemos de cine) e El nuevo cine latinoamericano de los años sesenta. Entre el mito político y la modernidad fílmica, talvez seu livro mais importante e o mais polêmico, que já é sem dúvida alguma um livro de referência no assunto.

A julgar pelas publicações recentes de Frías, poderíamos chegar à conclusão equivocada de que seu interesse específico se restringe à história do cinema. O contra-campo de sua escrita é a avidez por participar de todos os festivais da região e ser testemunho direto de tudo o que está sendo feito no cinema contemporâneo. Podemos vê-lo em Valdivia, em Mar del Plata, em Buenos Aires e na Cidade de México, sempre nas datas nas quais são celebrados os respectivos festivais que mais lhe interessam nessas metrópoles. O regime cinéfilo durante essas visitas é o seguinte: cinco ou seis filmes por dia, desde as dez da manhã às dez da noite, um filme atrás do outro, sem que tenha muita importância as horas do almoço, jantar e de sono. Nessas semanas há que ver tudo. Este não é o simpático hábito de um crítico, senão uma posição em relação ao cinema: o interesse pelo cinema do presente é tão determinante como o interesse pelo cinema do passado, o que permite situar com maior precisão a posição de enunciação dos textos de Frías quando estes se referem ao passado do cinema.
De fato, sua posição crítica não se sacia na nostalgia de um pretérito tempo mítico no qual o cinema era melhor que o de agora. Definitivamente ele não é um adepto do conservadorismo estético. Nesse sentido, Frías é o gêmeo perfeito de outro grande crítico do continente, o mexicano Jorge Ayala Blanco, também condecorado com o prêmio Fénix há dois anos. Ambos pertencem a uma mesma geração, os dois escrevem sem parar e publicam livros desconhecendo os limites característicos de uma sociedade entregue à distração, os dois sentem uma espantosa comodidade na hora de trabalhar dialeticamente movendo-se entre o passado do cinema e o cinema do presente. Os dois, além disso, não renegam a inapelável condição de latino-americanos, responsabilidade intelectual que assumem com total convicção mas sem desdenhar a total compreensão do cinema. A única diferença entre eles se encontra em um bigode e em uma barba branca.

É que a pátria do cinéfilo ultrapassa qualquer tradição linguística, a história compartilhada que surge de ter vivido em um determinado território e a eventual constatação empírica da identidade sintetizada em um documento nacional que o con rma. A forma de amor praticada por Frías e dedicada ao cinema participa de outro mapa de “nações”. Na República de Jerry Lewis, na Comunidade Autônoma de Glauber ou no intricado arquipélago JLG, Frías é considerado um cidadão ilustre. Frías pode ter publicado o livro mais importante da história do cinema latino-americano deste século, mas além disso tem um título anterior chamado Grandes ilusiones no qual escreve sobre cinema peruano e comédias musicais, e dedica capítulos a Abbas Kiarostami, Adolfo Aristarain, John Ford e Jean Renoir. A cinefilia de Frías é internacionalista, como acontece com os cinéfilos de todos os hemisférios.

É hora de dizer que Frías é conhecido por todos como Chacho; é o momento oportuno para esboçar algumas características do discurso cinematográfico do autor. Chacho pensa assim e assim escreve.
No epílogo de El nuevo cine latinoamericano de los años sesenta. Entre el mito político y la modernidad fílmica, Chacho Frías afirma: “Diante dessa perspectiva de um novo cinema mais ou menos ortodoxa e institucional, seria mais conveniente abrir o leque e incorporar essas outras expressões que contemplamos neste livro e que daria, hipoteticamente, um panorama mais amplo e compreensivo. Mas não é minha intenção fazer uma proposta de ampliação dessa categoria e pedir que nela entrem os que naquele tempo eram os rejeitados, os marginais ou os independentes a maneira de um Prelorán. Que todos eles, os ortodoxos e os heterodoxos, zeram um novo cinema é um fato que – acho – é indiscutível… Isso é o que permanece e o que se deve resgatar, mas colocando seriamente em dúvida – como dissemos – a existência de um movimento regional, de algo mais que um projeto concebido e alentado no calor dos debates políticos e culturais desses ‘anos de comoção’”.

O estilo aparentemente conciliador com o qual encerra o livro mencionado é provavelmente uma extensão anímica da amabilidade de espírito do autor, porque as 459 páginas estão dedicadas a destituir uma certa forma de leitura uniforme do cinema latino-americano. O propósito consiste em problematizar o imperativo político trabalhando sobre um certo instinto de modernidade às vezes em tensão com a determinação política da arte. Chacho Frías acredita que é necessário enfraquecer o mito (ideológico) de um cinema homogêneo na região e ao mesmo tempo destinado a ser o suplemento de uma luta política orientada à emancipação. É por isso que examina autores, cineastas, filmes; recolhe evidência diversa e divergente e questiona secretamente uma forma de entender o cinema político na América Latina. A polêmica é difusa mas incontestável, e se o livro não incita a fúria dos leitores mais identificados com aquele mito deve-se mais que nada a uma questão estilística que conceitual.

Chacho Frías defende obliquamente nessa obra recente que o cinema não possui um fim único. Para ele é um direito legítimo que o cinema esteja associado ao prazer e à distração. Eis aqui um exemplo magnífico, a propósito de El ocaso de los cheyennes, no qual se sente a posição do crítico: “Fatos insólitos serviram de marco na estreia deste filme. Alguns comentaristas de jornais (que me lembram essas pessoas que sempre vão aos parques de diversão para fazer tiro ao alvo e que nunca acertam nem por acaso e, no entanto, insistem nisso) tiveram a ousadia de falar da decadência ou o ocaso de John Ford”. Após a iniciativa certeira, e depois de vários parágrafos de sisuda análise, Chacho prossegue: “Todo este mundo moral, humano, sereno como poucos em sua manifestação sensível, é, ao mesmo tempo, de uma beleza exemplar. Não é só a beleza incomparável de umas paisagens que os 70 mm de Ford captam em toda sua dimensão epopeica. Não é só a beleza da cor que reveste cada trecho da terra e cada extensão verde da paisagem. Não é só a beleza da funcionalidade e da simplicidade expressiva com que homens e paisagens são mostrados. Não é só a beleza de uns sentimentos que se re etem com uma potência poética inapreensível. Não é só a beleza de uma visão de mundo, exemplar em suas conotações morais, exemplar, sobretudo, em suas manifestações concretas. É a beleza de tudo isso ao mesmo tempo, potencializado em um conjunto harmônico”.

A citação provém de El cine en las entrañas (páginas de Hablemos de cine), um livro que reúne uma admirável quantidade de textos publicados na já mítica revista peruana Hablemos de cine, publicação chave para todo o continente, de meados da década de 1960. Neste volume de 651 páginas, Chacho Frías amalgama quase todos os seus trabalhos para essa revista que vão de 1965 a 1984 e elege uma lógica cronológica para seu ordenamento, decisão que revela a evolução da própria escrita do autor, o tempo histórico no qual escreve, as leituras da época, as teorias em curso que situavam a análise, os inimigos daquele então. Se alguém desconhece a obra de Chacho Frías, este é o livro ideal para começar a lê-lo, pois aqui se destila a genealogia e o desenvolvimento de um crítico, já que podemos seguir passo a passo os períodos específicos da constituição de uma cinefilia que sustentou toda uma carreira acadêmica, crítica e jornalística. Livro que além disso introduz a análise do próprio autor sobre seus escritos passados, em um jogo lúdico e lúcido de distância e autocrítica, mas não de arrependimento e conjura de nenhuma vergonha. A revisão aqui é um jogo, um ashback aplicado ao discurso.

O cinéfilo imbatível continua seu caminho. Seu semblante de velho mestre pode confundir um pouco, porque Chacho Frías não parece estar disposto a parar para descansar e deixar de compartilhar a sabedoria que adquiriu durante tantas décadas de delidade a uma paixão inegociável pelo cinema. A paixão ciné la desconhece anos, os compromissos familiares e a tranquilidade que poderia advir após décadas de trabalho ininterrupto. O que acontece é que para Chacho Frías o cinema e a vida são quase indistinguíveis. Não deixará de escrever uma crítica, pensar um ensaio ou elaborar uma lista dos dez melhores filmes do ano, porque já passou muito tempo. Somente acontecerá algo parecido quando ele, como a todos nós, chegue a hora de passar ao outro lado do filmável.

ISAAC LEÓN FRÍAS

Foi em 1965 que o então jovem ciné lo peruano Isaac León Frías começou a publicar suas críticas de cinema, ao co-fundar – e depois dirigir até 1984 – a revista Hablemos de cine em Lima. São mais de cinco décadas nas quais vem compartilhando seus escritos em publicações como as revistas La gran ilusión y Ventana indiscreta (da qual é membro do conselho editorial), ou os semanários Caretas e Somos.

O ex-diretor da Filmoteca de Lima (de 1986 a 2001) é também um prolífico autor de livros sobre cinema universal e latino-americano, entre eles Los años de la conmoción. Entrevistas con directores sudamericanos (1967-1973) (México, 1979), Grandes ilusiones. De Eisenstein a la neo-comedia romántica (Santiago de Chile, 2008), El nuevo cine latinoamericano de los años sesenta. Entre el mito político y la modernidad fílmica (Lima, 2013), Tierras bravas. Cine peruano y latinoamericano (Lima, 2014) e El cine en las entrañas (páginas de Hablemos de Cine) (Lima, 2016).
Seu saber e sua paixão pelo cinema também ele os transmitiu nas aulas. De 1970 a 2014 ensinou cinema na Universidade de Lima, de cuja Faculdade de Comunicação foi decano de 1990 a 1996. Hoje continua exercendo a docência na Universidade Católica do Peru e na Escola Peruana da Indústria Cinematográfica.