UMA CONVERSA SOBRE O FILME JAPÓN

Quando Ricardo Giraldo, diretor do Cinema23, me propôs uma conversa sobre Japón, pensei que seria uma boa ideia convidar duas pessoas que não fossem do cinema. Queria evitar um enfoque orientado demais aos cinéfilos, como costuma acontecer nesse tipo de conversa. Responderam ao nosso chamado duas pessoas intensas e profundas. Uma no artístico e a outra no sociológico, mas ambas complementares em sentido inverso. Quer dizer, Abraham Cruzvillegas é um artista com uma preocupação muito voltada para o lugar do ser humano no México. Em sua obra e em seu discurso, pergunta-se sem parar sobre nosso papel aqui. Diego Osorno é um pensador social que transcende a reflexão de escritório para estabelecer contato direto com o que nos rodeia hoje — horror indizível — e além disso lhe sobram criatividade e sensibilidade artística. Lembro que o dia da conversa que aqui se transcreve, me senti com um tipo de obrigação de contar tudo sobre Japón; agora que a leio, me dou conta que errei: não ouvimos as vozes de Diego e Abraham tanto como eu gostaria. Lamento e espero que o leitor me perdoe por não ter tirado maior proveito desses dois seres tão generosos e com tanto o que dizer.

Gostaria de acrescentar que ao ler a transcrição, senti patente a deficiência da linguagem oral quando se torna letra escrita. Para remediá-la me permiti esclarecer vários conceitos. Retifiquei para esclarecer o que me parecia que por escrito não era compreensível ou faria da leitura um processo fastidioso ou sombrio.

-Carlos Reygadas

 

CARLOS REYGADAS
Diretor, escritor e produtor mexicano, Carlos Reygadas estudou Direito na Cidade do México e depois se especializou em Legislação de Conflitos Armados e Uso da Força, em Londres. Depois de abandonar o Serviço Exterior Mexicano, realizou quatro curtas-metragens na Bélgica antes de filmar sua obra prima Japón, que estreou no Festival de Cinema de Cannes em 2002, onde recebeu a Câmera de Ouro – Menção Especial. Seus filmes seguintes também estrearam no Festival de Cannes: em 2005, Batalla en el cielo; em 2007, Luz silenciosa, pelo qual recebeu o Prêmio do Júri; e em 2012, Post Tenebras Lux, pelo qual obteve o prêmio de Melhor Diretor. Coproduziu todos os filmes de Amat Escalante desde seu primeiro longa, Sangre (2004). Seu último longa-metragem, Nuestro tiempo (2018), estreou no Festival Internacional de Veneza.

ABRAHAM CRUZVILLEGAS
Artista mexicano, Abraham Cruzvillegas estudou pedagogia na Universidade Nacional Autônoma do México e integrou a oficina de Gabriel Orozco de 1987 a 1991. Sua obra foi exposta no Museu de Arte Contemporânea de Chicago, Redcat Gallery em Los Ángeles, Tate Modern Gallery em Londres, New Museum em Nova York, Museu de Arte Moderna de Oxford, Le Carré em Nimes e Artsonje em Seul, entre outros. Desde 1990, Cruzvillegas vem dando aulas e ministrando cursos, seminários e oficinal em diferentes instituições dedicadas à arte, entre elas: Fundação Dia Art, Academia de Arte Malmö Art, Ruskin College-Oxford, Universidade de Duke, Universidade de Nova York, Escola de Arte de Glasgow, CalArts, Museu Guggenheim, Tate Modern, Museu Tamayo, Centro de la Imagen, Centro Nacional de las Artes, Instituto de Arte de San Francisco, Universidade da Califórnia-Los Angeles, ENAP-UNAM e La Esmeralda. Seu trabalho se caracteriza pela utilização de materiais encontrados e a reutilização de objetos, em particular seu projeto chamado Autoconstrução. Sua obra utiliza meios como escultura, pintura, desenho, instalação e vídeo, com os quais revela seu compromisso com o mundo material que o rodeia.

DIEGO ENRIQUE OSORNO
Jornalista, escritor e cineasta mexicano, Diego Enrique Osorno é autor de oito livros de crônicas sobre o México do século XXI, algumas adaptadas para o cinema e para o teatro. Como documentarista e roteirista recebeu prêmios nacionais e internacionais, como o José Rovirosa da UNAM ou o India Catalina de Cartagena das Índias. Foi nomeado Comissário da Verdade de Oaxaca e recebeu um reconhecimento do World Justice Project por seu trabalho contra a impunidade. Recebeu vários prêmios de jornalismo incluindo o Prêmio Nacional de Jornalismo do México em 2013. Foi bolsista do Pullitzer Center e da Rockefeller Foundation. Em sua bibliografia estão: El cártel de Sinaloa. Una historia del uso político del narco (Grijalbo, 2009), La guerra de los zetas. Viaje por la frontera de la necropolítica (Grijalbo, 2012), Nosotros somos los culpables. La tragedia de la Guardería ABC (Grijalbo, 2010) e Un vaquero cruza la frontera en silencio (Literatura Mondadori, 2011). Vive no norte mexicano, onde continua trabalhando de maneira independente.


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