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Ficções encantadas

A conjectura é a seguinte: em certas ocasiões, o reconhecimento para um artista não provém das exitosas passagens pelo tapete vermelho ou da recorrente assinatura de um autor em um catálogo de consagrados, senão daqueles que não se corrompem com as falácias do poder e que podem identi car a verdade de uma obra e as inocentes virtudes de um cineasta. Rehm tem isso que falta na comunidade globalizada do cinema: um olhar livre dos compromissos, às vezes embaraçosos, que muitos diretores artísticos assumem com a difusa instituição dos festivais. Rehm é dos que arrisca e propõe caminhos; Gomes também.

O diálogo entre o cineasta e o diretor artístico, também heterodoxo crítico de cinema, é o de dois homens que amam verdadeiramente o cinema e que não estão dispostos a abdicar diante das constantes tentações para chegarem a ser comerciantes de uma indústria. Essa palavra, talvez inevitável, sempre confunde. Quando em março de 2016, Gomes e Rehm mantinham um diálogo no auditório do MUAC, no contexto do FICUNAM e durante a retrospectiva que esse festival dedicava ao diretor português, o cinema, além das personalidades dos envolvidos, falava por suas bocas. Esse dia, todos os que estávamos ali pudemos intuir que o cinema é uma bela forma de trabalhar sobre a inesgotável abundância do mundo e seus signos através de uma câmera capaz de encantar a matéria dada e reinventar o destino dos homens.

Roger Koza

 

MIGUEL GOMES
Miguel Gomes (Lisboa, Portugal, 1972) estudou cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema de sua cidade natal. Em 1996 iniciou sua carreira como crítico cinematográfico para a revista Público, com a qual colaborou até o ano 2000. Sua trajetória como diretor começou em 1999 com o curta-metragem Entretanto; depois vieram Inventário de Natal (2000), Kalkitos (2002) e 31 (2003), nos quais ele já se apresenta como um diretor propositivo com uma estratégia criativa particular. Sua obra-prima, A cara que mereces, estreou em 2004. Seu segundo longa, Aquele querido mês de agosto (2008), teve um importante reconhecimento em festivais internacionais, como aconteceu com Tabu (2012). Seu filme mais recente é um projeto ambicioso e diferente, realizado em três partes: As mil e uma noites (2015) teve sua estreia na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes como uma produção voltada para a atual situação política pela qual está passando Portugal.

JEAN-PIERRE REHM
Jean-Pierre Rehm ( Argélia, 1961) é um teórico do cinema francês, crítico e, desde 2002, diretor do Festival Internacional de Cinema de Documentário de Marseille (FIDMarseille). Estudou Literatura Moderna e Filoso a na École Normale Supérieure (ENS) em Paris. Foi professor de História e Teoria da Arte e do Cinema; trabalhou também para o Ministério da Cultura Francês. É colaborador da prestigiada revista de cinema Cahiers du Cinéma, participa frequentemente com críticas de arte e cinema para a mídia especializada. Foi curador de numerosas exposições de arte contemporânea na França e em outros lugares como o Museu de Arte Moderna do Cairo ou o Yokohama Art Center do Japão.


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